11 de julho de 2017

átomo central da pedra do fundo do poço

nesse exercício diário de me amar um pouquinho mais
percebi que escalava o buraco
do meu próprio
umbigo

o


[ato VI] .coleção dos meus pedaços.

crônica de coletivo: como consegui minhas "emorróidas"

Chove um pouco, e eu não me canso de olhar pela fresta da única janela aberta dentro do ônibus. A sensação oscila como o vento gelado que força passagem entre-vidros, alívio e desespero. Meus monólogos aguardavam qualquer resposta que fosse do universo:
"Como saímos ilesos disso tudo?"
Sento no corredor e a senhora ao lado faz sinal que vai levantar. Trocamos olhares e sorrio com meus para ela - dizem que se você sorri, dificilmente não será retribuído.
- Tchau, mocinha!
Agora meus dentes a cumprimentam, não mais avaliando teses.
Dou espaço para que passe, nos esbarramos ombro a ombro. E quando ocupo seu lugar no ônibus, entendo que pra mim, na vida, a gente pode tudo, menos sair ileso.

4 de julho de 2017

amores gástricos

minha sensibilidade gastrointestinal
nunca me permitiu ser aberta
praticamente tudo revira aqui dentro
basta mirar o objeto de desejo,
e alguns me pedem dentada
[tranquilo, se eu não estiver tão faminta
o que resta, abocanho e mastigo
contemplando todos pedaços de mim

minhas papilas urram de forma aguda
engulo o bolo todo, já pensando nos possíveis
gases ocasionados.
a muito custo algo sobra pra saborear
uma pasta que ainda carrega o gosto original,
o que não me impede de preencher a boca
inteira.

quando acaba, preciso empurrar
essa experiência impulsivamente graciosa
3 reais da cerveja
3 goles, lata amassada
lembro que a combinação não é lá muito
recomendável

não demora, já preciso me sentar
no meio fio da calçada
pra'quela dor do inferno -- caralho!
vinda daquela comida gostosa
não teime em passar


me desculpa o palavreado
que eu vou ali no mato
pra ver se o que remexe aqui, ao menos
fará o solo adubado

3 de julho de 2017

abraço

o fantasma que sou
emergiu do lago
tão próximo
que banha
a garganta
remexe suas
águas vulcânicas
onde crostas
da aguardente
petrificam
dissolvem
pensamentos odiosos
abandono
e a pena conquistada
em contemplação
do palco sucessivo
de entulhos e dejetos
re-conhecidos
naturalizados
colocados na
balança e
julgados
- Errado!
o que habita
esse voyeurismo
nada mais é
identificar a
si mesma
perdoar
e silenciar
as águas
agora mornas
na maré
baixa
da boca do gargalo


[ato V] .coleção dos meus pedaços.