21 de junho de 2017

brenda

atentamente meus olhos costuravam seus vestidos floridos
neles tinham manchas de seus pincéis duros e esquecidos
com certeza diria que fui a maior entusiasta
de uma mente amável e cheia de mística
existe alguma flor que por fora é pétala
e por dentro tem um cadinho de espinho?

caranguejeira
por que te demorou tanto a troca de carapaça?
podíamos ter voltado naquela tarde,
onde eu te dizia que nas paredes de flores há algo mais 
do que a aquilo que a gente vê de primeira
mas não dá, né? foi um grande sonho irreal
agora eu desvio meu olhar
porque se a gente se conectar de novo, numa fração de segundos
eu desabo


[ato IV] .coleção dos meus pedaços.

18 de junho de 2017

privilégio dos pássaros

retornei a uma memória de infância, em noventa e nove, onde eu gastava as horas por olhar a revoada dos pássaros, que mundo injusto era aquele que me permitia lamentar por isso, e não apenas voar como eles? insistia todos os dias à minha mãe, que respondia que nossos corpos não foram feitos pra isso. primeira lembrança de quando me dei conta que estamos em regime condicional com o mundo material.
agora chove, em dezessete, e há uma graúna em meus ouvidos, mirei pela janela.

não me canso de pensar no privilégio dos pássaros.


[ato III] .coleção dos meus pedaços.

15 de junho de 2017

aqui vai um desabafo:
nos meus versos, é tudo escancarado
palavra de anzol,
e poesia à quem doer

p.e.t.

componentes orgânicos cristalizados em grãos
a disposição inicial tem a intenção de flexibilizar e evitar a rigidez
submete-se à altas temperaturas pra ser capaz de adaptar-se a qualquer formato
ou espessura
a tampa é colocada de modo para que apenas se abra quando necessário
apesar de ainda não ser o momento de se colocar o conteúdo

o processo seguinte modela completamente o material à necessidade
a fina camada de plástico oscila entre pólos: tórrido e gélido
sopra, fecha, enche, rotula, distribui

chego às suas mãos, um graal na urgência
amarrotada e tomada por dois grandes goles
suprindo também a ânsia de todos que rodeiam

acabo

sou amassada por passatempo
e sorte que sou capaz de me adaptar a qualquer formato
ou espessura
sua boca arranca-me o bocal e nos mordemos por horas
tenho vincos no meu anel que poderiam te machucar,
mas você sabe onde morder - ou se acostumou
em suas mãos, deformada, um retrato do que já fui
em sua boca não me pareço com nada, mastigada

alvorece

descarta
mas ao menos teve o cuidado
de me despejar nos recicláveis
sou reflexo de um monte de outros
que rezam para quando renascerem, então,
façam parte de uma casa
objeto de decoração
ou de novo
o destino será o chão da praça?


[ato II] .coleção dos meus pedaços.

11 de junho de 2017

corda bamba

meus pés rachados tocam o grosso linho
as mãos, se contorcem estranhas inconscientemente
não há varas, sequer vendas
atrás e logo a frente tem algo parecido: duas torres, quase que gêmeas
elas oscilam, pois desmancham também
a cada passo
ignoro o conselho
e olho pra baixo
- que também é pra dentro




[ato I] .coleção dos meus pedaços.

4 de junho de 2017

mal a ninguém

improvável
também digo: egoísta que outros não possam estar junto
quando a gente troca nossas coisas
reformulando todos argumentos
sobre todas aquelas que podem ser vistas
acima do prédio, debaixo de mantas
e aquelas
que dentro da gente, em silêncio, tanta árvore cresce
e muda
pouca palavra, seja miúda
ao contrário dos seus olhos, que muito revela
não quero sair daqui [só um pouquinho, na verdade
pra quando a gente voltar, eu não me guentar
daquilo também...
saudade