13 de outubro de 2016

Fobos e Deimos

A melhor vista 
do eclipse de mim 
é por debaixo da cama 
deitada, de camisa molhada 
na cara

Já pensou se incomoda os berros de fora
Quando os meus saem daqui de dentro? 

Três séries de urros reprimidos
com intervalos de dez minutos de vazio
e nada
Enquanto no dia a tristeza é engomada
É de noite que a aporia amarrota
Fobos 
e Deimos 
em órbita. 

Trava, anda, se acostuma com a perda
dos olhos de vidro
netunianos que são 
e tão mais ébrios quicando no chão 

Fobos cochicha baixinho 
entre trechos da tristeza que balança 
a visão epicurista que viça
do salto, a presença: 
da ausência total de mim

24 de setembro de 2016

Anfetamim

Passar por esse pico
requer um pouco de alcoolcontrole
porque
tudo me lombra
você

9 de julho de 2016



Saco preto
É bom deixar bem fechado.
Abre
Afunda os dedos, um punhado está bom 
massa cor de tronco
- É úmida.
A resistência de descolar-se das outras, 
Arranca sem dó
de seus dedos. 
Entre a carne mole e dura, 
é terra. 
Não há tempo de lamento qualquer
quando entre a superfície e si não se distingue. 
Os ouvidos dos punhos ignoram 
qualquer sinal. 
Estalado do barro fino
"Com ar, só se quiser uma escultura a rachar"

Terra seca
Não serve

A mão mergulha a si mesma, 
é intermédio, 
é mandado, 
Olho doloso. 
A pena é o barro líquido, 
que mudou de lado
e agora enluva o carrasco.
Se escorre por entre dedos, então 

Terra molhada 
Não serve. 

{Barro judiado
Se não torra, 
Racha.}

5 de maio de 2016

Hidra

Trilha complementar à poesia



O seu ego é ser mártir de uma dor que não é sua, 
nem dos outros.
Surrupia a voz para fazer dela a tua 
um melindre de cigana.
Surrupia, pedra ônix maldita
suas dignidades são só de superfície
da cabeça de sete cabras.
A cada corte fundo
é arrepio na espinha empunhando garrote
enquanto meu ferrolho lhe queimava a última cabeça,
a ideia de enterrar-te em mim era a única solução
para o veneno esguichado em feridas mal curadas.

Quisera tu ser víbora
Nociva.


22 de março de 2016

Duas horas e meia


Na espera escrevo 
O horror da minh'alma. 

Só assim descobri 
Que a solidão deu as mãos ao pesadelo 
Por medo de ser só. 

16 de março de 2016

Víbora gentil



Nunca vi cobra educada
Seu veneno que dispara
Me acerta e ninguém viu

Será que é mania de coral
Fazer arte, embriagar
De sereia alimentar 
Oh, coitada, você viu? 

Traída, refutada
O drama já cansou
Vem pra perto do leão 
Toda quieta, amansada

Você espera que um dia 
O leão lhe devore
Mal sabe, inocente 
Que a cobra se enrosca
E o pescoço ela tora

Só é bonito o teatro
Que a surucucu fizera
Agrada o povo com seu choro 
De malícia, sua miséria 

Então aqui estou
Porta-voz do Seu Leão 
Eita desgraça é essa cobra
Ranca olho, é gavião 

Que o recado seja dado 
Esse olho tem irmão 
E tá mirado nessa cobra.