10 de agosto de 2015

Sem viseira


Cheguei por terras. Aquelas que eram arenosas, firmes e maleáveis. Tu eras como duna morena, e na suntuosa curva de seu pescoço longo eu me deitei. Quando passava meus dedos por ti, adaptava-se ao meu gosto. Sua fala era mutável, o puxar de olhos nevoados. Negros e negros.
Construí castelos em ti. E foi lá que moldamos nosso universo.

Desviei por um momento minha atenção para reparar toda aquela bagunça. Como pude perceber qualquer outra coisa? Era pura brisa, não havia mais terra. O barulho mudo, nada falava ali. Meu toque refletia no nada, e em vão agarrava, agarrava a baforada em meu colo. O que era belo estava na ansiedade do vazio, do  silêncio. Era o sexo unilateral, sem gozo. Alívio que vem, afogo que vai.
Ressecada, só tinha mar.

Em solo movediço, estavam os pés, sem firmeza empurrados por sopros de diversos lados. Evidentemente a queda beijou-me salobre.
A única coisa que vi, apanhei. E não havia outro modo para sê-lo. Tinha nome de menina aquele barco...
Recém-ancorado, ao acaso cabia a viravolta de seu leme.

Embarcada, jamais esqueci que no meu drama português, dependeria para sempre dos dois pingentes que guardei.


O que viria então...
Ressaca?

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