8 de dezembro de 2015

2012


Era parada olhando pro teto que elas escorreram
As bochechas reclamariam dos rastros se pudessem
Quando caem
No ecoar do vento menos audível
Nos tímpanos elas lamentavam coisas que nem eu mesma sabia explicar.

13 de outubro de 2015

hoje é dia Dê...


Lita, empregada da casa, um pouco de babá, um tico menina. Da pele negra brilhante e cascos de pés barulhentos gastadores de chinela. Não se sabe ao certo em quais condições Lita se submetia, mas que o carinho da menina mais nova, com certeza, ela tinha.
Os miúdos cabelinhos ela enrolava, penteava, e em seu colo ela ninou a barrigudinha. Não existia outra pessoa tão engraçada quanto Lita, dos dizeres "ói muito tempo vesga pras coisas não, que se bater um vento fica".

Lita se foi, roubava dinheiro da casa, maltratava a mais velha; e o pouco de amor que tinha, levou consigo sem ao menos um beijo na menina.



Vanessa, pré-adolescente do novo prédio, escrava da avó e da macheza. Os olhos amendoados de Vanessa, tinham o mel em todos seus sentidos. Nada que a menina quisesse, que não lhe era conseguido. Mesmo que de antemão avisado para a barrigudinha, tudo que saísse da boca de Vanessa era maldizer, e até rinoceronte do primeiro namorado da menininha ela quis ter. A moeda de troca era boa, melhores amigas do mundo, suco de tamarindo e tardes na piscina ela dizia ter.

Que menina ingênua! Todos disseram quando Vanessa se foi, deixando de herança muitos folclores sobre a conduta da menininha. Ela nunca se esqueceu, nunca deixaram.



Ao longo de um quarto de vida — a que antes menina —, nunca entendeu porque não ensinaram, com regras, de que forma se diz adeus para quem está vivo. No entanto, com sua própria receita, os nomes e rostos estão organizados por ordem alfabética e cronológica. Começando por apatia.

8 de outubro de 2015

Transversal


Naquele sonho,

meu céu profundo tinha um centauro, o bicho com arco apontado e olho mirado à distância, tramando uma cilada em meio burburinho de pessoas chapadas.

Do dado dia ouvi de uma velha conhecida, que seus encantos viriam pra desgraçada total, e que naquela lua jamais me caberia. Ora essa, se eu não sabia?

Frieza gelada já de águas passadas, como peixe de aquário fugido do janeiro lá de Varsóvia. 
Ai que tristeza, nossa graça fazia na timidez de (seus) olhos constrangidos.

Quem sabe eu brinco de ficar um pouco mais. Esperando a hora de tesar selvagem criatura já adestrada por insentimentos tão duros.

Como que entendo nosso papo transversal
Que não é de sexo,
Mas fala no ouvido?

24 de agosto de 2015

MotoRápido 24hs, boa noite...


Já tenho o número decorado

Tanto o fixo como celular
Termina em oito oito oito
Deu nem trabalho de gravar 

Que falta de criatividade

Das empresas que liguei
Demora de 15 à 20 minutos 
E foi "que só" que esperei

Uma coisa que eu conheço

É cangote de motoboy 
E o remelexo doidjo
De um asfalto que se destrói 

Bastou um pé d'aguinha

As tranças a gente faz
Por entre vidros lacrados
O esforço é ineficaz 

Porque o atraso é eminente 

Seja pro trabalho, pra casa da gata...
Mas uma certeza a gente tem
Li no muro "nós na rua ninguém desata"

Cê agarra no hômi na frente
E daí se faz poesia 
Num tranco doido súbito você voa
Prum cachorro na travessia.


10 de agosto de 2015

Sem viseira


Cheguei por terras. Aquelas que eram arenosas, firmes e maleáveis. Tu eras como duna morena, e na suntuosa curva de seu pescoço longo eu me deitei. Quando passava meus dedos por ti, adaptava-se ao meu gosto. Sua fala era mutável, o puxar de olhos nevoados. Negros e negros.
Construí castelos em ti. E foi lá que moldamos nosso universo.

Desviei por um momento minha atenção para reparar toda aquela bagunça. Como pude perceber qualquer outra coisa? Era pura brisa, não havia mais terra. O barulho mudo, nada falava ali. Meu toque refletia no nada, e em vão agarrava, agarrava a baforada em meu colo. O que era belo estava na ansiedade do vazio, do  silêncio. Era o sexo unilateral, sem gozo. Alívio que vem, afogo que vai.
Ressecada, só tinha mar.

Em solo movediço, estavam os pés, sem firmeza empurrados por sopros de diversos lados. Evidentemente a queda beijou-me salobre.
A única coisa que vi, apanhei. E não havia outro modo para sê-lo. Tinha nome de menina aquele barco...
Recém-ancorado, ao acaso cabia a viravolta de seu leme.

Embarcada, jamais esqueci que no meu drama português, dependeria para sempre dos dois pingentes que guardei.


O que viria então...
Ressaca?

27 de junho de 2015

Mensagem longa colada - de envio, direto, rápido e esquecido.


Perdi aquele texto que tinha pra você. Um bem bonito, com palavras difíceis e cheio de modos. Ele falava sobre como esquecia versos que haviam chegado até mim, por e pra você. Todo texto era outro, e engraçado é, ainda mais, por falar de esquecimento.
Talvez fosse mais romântica se eu dissesse que perdi meus pensamentos porque molhei meus escritos, ou os derrubei pela janela. Meu celular travou. Pura e simplesmente. Não haveria de ser mais instigante que isso.
E como eu poderia me gastar em analogias agora...
Tinha algo assim:
Verter
As lágrimas que meu estômago engoliu, todas elas, acidificadas que metalizavam minha língua
Vertia
Que as consequências por detrás de si, têm motivos que se validam os karmas.
Ver-te indo
A auto-amputação do mundo de possibilidades. Na preferência de idealização de panoramas incertos. Com a certeza que isso tudo "cheira à merda", e de algum modo, chafurdar.
Vá indo.
E volta, quando der.

22 de abril de 2015

Quando eu vejo a cidade poética


Quando eu vejo a cidade poética
É a calçada e o negro no horizonte da noite corrida
A janela aberta com maresia encrustada de vento varrido
A garota de cabelos curtos e o cara barbudo se entreolhando de lado
O carro acelerado e ouvidos vazios de cantos bonitos
Silêncio ficava enquanto eu só via amor em forma de brisa
Só lembrava do olhar e o que a moça dizia
"Olha pra mim, meu bem, e lembra desse dia comigo"

12 de abril de 2015


Quem sabe eu que tenha ofendido afrodite
O canto fúnebre sai daqui
Sirena menina, seu silêncio me dói
Me adestra pra morte


10 de abril de 2015

Eu te amo lírico não oralizado

olhou sacana
beijou, me chama
treme
vem cá, eu te seguro
antes eu soubesse
que beijo no olho
é isso tudo...


1 de abril de 2015

Intervalo

Foi por descuido.

Setecentos e oitenta e sete dias atrás, eu fui um sinal amarelo.
No último ano do signo de serpente, me coube ser o espacinho entre um samba triste e outro.
Os segundos excitantes de um salto, nunca o impulso.
Lembro também de ser aquele ventinho gostoso de perfume cheiroso que passou.
E quando fui aquele momento que antecede o momento antes do beijo? O da vergonha...
Dez pras nove e meia nas aulas de matemática.
A tarde agradável de quinta na praia, ela, fui eu quem fui.
Um dia inteiro de mensagens.
Ronco da fome na lanchonete pé-sujo da faculdade, muito fui.
Semana passada quis ser - só fui - o suspiro que arranquei da sua garganta.


Vermelho. Disritmia. Terra. Cangote. Agoniazinha. Recreio. Sábado. Bilhetinho. Ronco do sono. Orgasmo.

Não fui.


Mas foi...

12 de março de 2015

Epifania de Zé

       Zé, rapaz novo, de barris às costas, dava carona em suas itinerâncias emocionais.
   Aqui e ali, Zé abarcava moças em seu tonel de barro destampado. E, despreocupado, seguia viagem acostumado com despedidas de suas viandantes. Nem sempre Zé lidava bem com essa tal de despedida, mas de qualquer forma, nas sandálias de couro seu pé esfolava; Até que certo dia, moça bonita, bela raposa, para ele se apresentou: Olá, xô entrar, pra bagunça não vou ligar. Me leve daqui ali que em partida estou, de viagem pra mais nunca tristeza me alcançar.

       Zé, rapaz novo, de coração mole, sempre de moças bonitas cativação conseguiu. Bolava meio mundo de ideias, de canções e pranto partia, pra nunca mais tristeza alcançar.
       Acontece que, de bela raposa, moça bonita, Zé sabia que dela sua façanha seria copiosa, autêntica, inconsolável e teatral.
   Que de olhos semi-serrados a bela raposa, já dera seu recado:
- ô Zé, te cuida, o seu tá guardado.



8 de janeiro de 2015

Eutanásia

A Imperatriz me confessou segredos cabais,
onde marés tenderiam a se modificar.
Tola; andei pelas cartas claras do asfalto amarelado de reflexos siamêsicos.

E em cada toque gélido de realidade,
o sonho entrevava-se e esvaía das mãos do Rei.

O cajado Cigano que impunha-se a mim,
fazia e jazia parte dum tronco de flagelos.

A quem diga que esfolamento pouco é bobagem.
Eu digo.
Por favor, separa o ferro de açoite.

2 de janeiro de 2015

Prole

        Nascida de espuma, concebi a ideia de que meus pés realmente tocavam o saibro barulhento. Há pouco havia embalado meu pequeno em um turbilhão de passagens desconexas e atemporais; ele dormia em meio ao Caos, de onde, desde o princípio, raiou.
Via-o nu, celeste e pequeno. Filho o qual não clamei, que de minha seiva não era.
Solitário  pensei. E logo trouxe à tona em meio ao vermelho pincelado que sangrava nublado, que seu irmão já habitava vingativo em mim.

       Pobre bebê ressonante. Anteros sugar-me-á todo o leite. 
       E nada poderei fazer.