9 de maio de 2014

Pierrot bundão

Sabia desde a semana anterior que este dia seria fatídico para causar boas impressões quanto a capacidade de permanecer impassível. Afinal, era uma pessoa que com recorrência não levava-se a sério. Por, justamente, achar que preocupação demais, mesmo que com problemas sórdidos, só acabava por pincelar mais uma camada de tinta sofrimental.

Na hora de planejar as roupas, em frente à gaveta bagunçada, procurava algo que fosse um tanto descompromissado, um tanto vivo e feliz. Não podia deixar com que as cores penumbriantes envaidecessem a aura negra que teimava em pregar-lhe as veias.

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Optou por caminhar com uma velha decepção, porém, sobre esta eu gostaria de me ater depois. Deixo aqui esse lembrete. E mais um. Explicar a conotação digna para palavra.

O jardim que percorreram tinha um "quê" de perdido nas décadas, todo o local cheirava à sementes e papelão velho. Algo que suponho que seja natural.

Quadros com erros de português, livros com relatos herbáceos, fases da lua e suas influências. Era bem distante de qualquer outra coisa que fora falada em alguns parágrafos. Cogitou em ser o escapismo perfeito, se não fosse a infortunada aula que surgia entre folhas de preocupação. Clareira! Clareira!

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Fez questão de chegar e analisar bem qual lugar seria perfeito pra se deixar contemplar. Com a impossível decisão, sentou em dois lugares, arranjando uma desculpa qualquer pra justificar com quem quer que fosse. Todo esse teatro fora armado à fim de causar aquela pose de austeridade.
Se tudo não tivesse sido minimamente pensado, poderia jurar que era uma personagem da Commedia Dell'arte.

Por alguns momentos foi capaz de se manter absorta nos rejuntes dos azulejos, nos dramas litúrgicos e todos seus interesses vindos da Igreja, nos peitos grandes da professora...
Mas aí parava e rabiscava.
"Ê Pierrot bundão, Comlombina é uma filha da puta querendo atenção."

Tentou evitar leves comparações com o dito personagem. Uma tarefa difícil. Porque se fosse fácil, não teria nem notado mínimas semelhanças suas com o mesmo. O que era óbvio: seu declínio foi ao menos pensar que poderiam ser análogos.

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Posteriormente, pode saborear o doce prazer vingativo e privador do "não".
Não, não vou beber café.
Não, não quero pastel.
Não, não vou ficar hoje.

Ah, aguenta essa agora, cara.


E na despedida, só não pode dizer não praquele beijo abruptamente insignificante na sua bochecha.


"Pierrot teria respirado tão naturalmente quanto eu depois de passar por isso? Me sinto bem, o ar é o mesmo desde trinta segundos atrás."