17 de dezembro de 2014

Presente pra mim

O fumo.

    Dedos tortos e um tanto esmorecidos anunciam que é chegada a vez. A saliva metálica se dissipa, trazendo a sofreguidão do seco, algoz e rouco. A eutanásia passiva, de quem muito em pescoços emaranha, delira em passados sucessivos amargos.
    Nos vigentes cânticos que de sereia arranca, emudece e umedece os lábios fumacentos, nada falam, nada pedem o colo que tanto (não) precisa.

30 de julho de 2014

Não é mais

       Sem muitos enfeites fui capaz de assimilar e compreender toda complexidade do meu ser. Reli algumas coisas que escrevi desde o início de toda Aporia.
Não tão inesperadamente, a empatia foi muito difícil de acontecer com a dor assolada que aquela anima transmitia. Eram pedaços irreconhecíveis de mim mesma, que se eu futucasse um pouco, conseguia apalpar novamente todo aquele pesar altamente calculado em joguinhos de palavras.

       Mas não é mais. Não. Nenhum texto é completamente triste, são manifestos de consciência em meio àquele sofrimento fugaz e tão ingênuo, de quem só é capaz de se doar inteiramente por quem não é capaz de afetar-se. Este é um resumo, sem rodeios.

E sobre coisas boas eu não sei escrever. E isso não pode ser mais.

29 de julho de 2014

Eu peço a minha dor

Tudo o que procuro é a dor e inquietação do ser. Essa que é o fuçar pelo que dói, e o que dói me enfada pelo o que acalma. Disso nada tiro. O tiro num barril de cólera. Que pro gargalo imploro a dor que dantes me eviscerara de pretéritos preteridos, àquela que com a ponta da faca sangrou a carne sob minhas unhas.
Eu sempre tomo gosto pela dor.
E das borras de café - todas predestinadas por mim -, as quais nunca pedi que avisassem a você que é capaz de, também, tomar gosto por sofrer.

2 de junho de 2014

Brevaiedade

Aos olhos dos outros, já pude ter sido tachada de moleque. E de puta. Posso dizer que já me chamaram de ambos, ao mesmo tempo!



Quem sabe tivessem certas dúvidas quanto ao que pretendo estampar pra estes e aqueles, cada dia sendo um pouco tendenciosa pra um lado, um pouco pro outro... Talvez nunca dando certeza do que posso ser, talvez sempre dando.

Não dava nada. Como se isso pudesse dizer algo sobre mim.

E não quer? 

Não. As pessoas não podem ser julgadas pelo que vestem, por suas vaidades.

E são pelo quê? Julgamentos são pré-definidos em milésimos de segundos, já podemos dizer muito sobre quem sequer conhecemos.

Acho que é superficial demais.

Na verdade, subjugar vestimentas é quase tão ruim quanto extrapolar o valor delas.

E o que é essa tal vaidade que fala?

Vaidade, aquilo que é vão; que não tem conteúdo e se baseia numa aparência mentirosa.

Isso é o significado mais raso que pôde me dar. A primeira coisa que leu sobre vaidade? Também pode ser atributos físicos ou intelectuais, caracterizado pela esperança de reconhecimento e/ou admiração de outras pessoas.

Tão raso quanto a poça do meu cuspe. Assim como conceitos repetidos. O que fez só foi copiar algo que fora lido. Eis que surge a famosa moda!

Preciso procurar uma definição pra consenso, ou posso me poupar disso? Me cansa joguetes.



Ah, a vaidade, acho que o que melhor pode defini-la é pensar que seremos indefinidamente cicatrizados na vida de outrem...

Como poderia não presumir isso? Impossibilidade de apagar existências é um dos males da sociedade, você bem sabe.

Sei bem. Mas assim como sei que existências são frequentemente recicladas. Podemos não apagar, mas sim substituir memórias e acreditar muito que elas são, e, sempre foram desta forma. Não me leve a mal, aquele filme que tanto dizia sobre a vida de vocês, talvez hoje tenha outro significado. 


Aquela música de 2007, assim como lugares que partilharam, comidas e sexo. Tudo isso englobará muitos outros significados e referências. Que nada lhe são propriedade.

Nossa.

Acredite em mim. Você faz isso toda hora. É pretensão demais pensar que já não o fizeram contigo.
Aquela carta que outrora fora propriedade de fulminantes palavras, hoje faz parte de recordações de momentos breves. Até mesmo lembranças dessa conversa serão convencionadas e direcionadas a um específico significado da sua vida, que não será o mesmo de agora.

Breve que nem a vaidade, então?

Tão quanto.


16 de maio de 2014

NO PUEDO!

Sobre vontade intermitente, a de estar contigo é algo que não se encaixa neste patamar. Há a facilidade do ser e do estar, do querer e praticar, como se minhas preocupações quanto ao que poderia expressar, estivessem livres de julgamentos pré-concebidos e análises mais profundas do ser.
Dos quereres, esse é o que menos me machuca - por enquanto.
Me pergunto se perdurará todo o descompromisso, a conversa fácil e o riso. Já passei por isso antes, e hoje sobra amizade e traços de pesar. Consideração? Me sinto sugando tudo que há pra me oferecer.
E quando não restar mais novidades? Pulando de mastro em mastro, o pirata não para no barco.
E não há outro lugar pra se cair que não seja as profundezas mais ludibriantes do que as grandes nuances azuis?
No puedo.

Eu me pergunto sempre... Esse texto que escreveu, poderia ser pra mim?

9 de maio de 2014

Pierrot bundão

Sabia desde a semana anterior que este dia seria fatídico para causar boas impressões quanto a capacidade de permanecer impassível. Afinal, era uma pessoa que com recorrência não levava-se a sério. Por, justamente, achar que preocupação demais, mesmo que com problemas sórdidos, só acabava por pincelar mais uma camada de tinta sofrimental.

Na hora de planejar as roupas, em frente à gaveta bagunçada, procurava algo que fosse um tanto descompromissado, um tanto vivo e feliz. Não podia deixar com que as cores penumbriantes envaidecessem a aura negra que teimava em pregar-lhe as veias.

...


Optou por caminhar com uma velha decepção, porém, sobre esta eu gostaria de me ater depois. Deixo aqui esse lembrete. E mais um. Explicar a conotação digna para palavra.

O jardim que percorreram tinha um "quê" de perdido nas décadas, todo o local cheirava à sementes e papelão velho. Algo que suponho que seja natural.

Quadros com erros de português, livros com relatos herbáceos, fases da lua e suas influências. Era bem distante de qualquer outra coisa que fora falada em alguns parágrafos. Cogitou em ser o escapismo perfeito, se não fosse a infortunada aula que surgia entre folhas de preocupação. Clareira! Clareira!

...


Fez questão de chegar e analisar bem qual lugar seria perfeito pra se deixar contemplar. Com a impossível decisão, sentou em dois lugares, arranjando uma desculpa qualquer pra justificar com quem quer que fosse. Todo esse teatro fora armado à fim de causar aquela pose de austeridade.
Se tudo não tivesse sido minimamente pensado, poderia jurar que era uma personagem da Commedia Dell'arte.

Por alguns momentos foi capaz de se manter absorta nos rejuntes dos azulejos, nos dramas litúrgicos e todos seus interesses vindos da Igreja, nos peitos grandes da professora...
Mas aí parava e rabiscava.
"Ê Pierrot bundão, Comlombina é uma filha da puta querendo atenção."

Tentou evitar leves comparações com o dito personagem. Uma tarefa difícil. Porque se fosse fácil, não teria nem notado mínimas semelhanças suas com o mesmo. O que era óbvio: seu declínio foi ao menos pensar que poderiam ser análogos.

...


Posteriormente, pode saborear o doce prazer vingativo e privador do "não".
Não, não vou beber café.
Não, não quero pastel.
Não, não vou ficar hoje.

Ah, aguenta essa agora, cara.


E na despedida, só não pode dizer não praquele beijo abruptamente insignificante na sua bochecha.


"Pierrot teria respirado tão naturalmente quanto eu depois de passar por isso? Me sinto bem, o ar é o mesmo desde trinta segundos atrás."

7 de maio de 2014

"Guardei a sua carta"


[Passado pra mim, o fumo.]

É passado pra mim? Me perguntei.


O frenesi de quatro letras me fez sofregar o cigarro de forma mais rápida. Talvez fosse a única coisa que me tiraria do lugar – que não fossem os mosquitos.
Caminhando alguns passos pra longe daquela fumaça de conversas sem sentido, com meus olhos débeis tanto quanto meu humor, pude ler uma profecia que já era anunciada.

Meu suspiro e a baforada de vento frio deram as mãos.

[E então, fumei.]

Traguei o único carinho nas minhas costas, a forma meiga que falava de sentimentos sem me olhar nos olhos, e aquela outra que me fazia temer de encarar os seus.

[Até o meu imo gritar, eu soltei.]

De forma que aquilo se desfizesse na irrealidade daquela brisa, me obrigando a sentar novamente, lugar de onde nunca deveria ter saído. Fingi meu melhor semblante que até os saudosos mosquitos se convenceram disso.

Com aquela mensagem, a atitude mais plausível foi deixar tudo gravado, pra depois eu me torturar.


[Vou ter que passar?]

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