21 de junho de 2017

brenda

atentamente meus olhos costuravam seus vestidos floridos
neles tinham manchas de seus pincéis duros e esquecidos
com certeza diria que fui a maior entusiasta
de uma mente amável e cheia de mística
existe alguma flor que por fora é pétala
e por dentro tem um cadinho de espinho?

caranguejeira
por que te demorou tanto a troca de carapaça?
podíamos ter voltado naquela tarde,
onde eu te dizia que nas paredes de flores há algo mais 
do que a aquilo que a gente vê de primeira
mas não dá, né? foi um grande sonho irreal
agora eu desvio meu olhar
porque se a gente se conectar de novo, numa fração de segundos
eu desabo


[ato IV] .coleção dos meus pedaços.

18 de junho de 2017

privilégio dos pássaros

retornei a uma memória de infância, em noventa e nove, onde eu gastava as horas por olhar a revoada dos pássaros, que mundo injusto era aquele que me permitia lamentar por isso, e não apenas voar como eles? insistia todos os dias à minha mãe, que respondia que nossos corpos não foram feitos pra isso. primeira lembrança de quando me dei conta que estamos em regime condicional com o mundo material.
agora chove, em dezessete, e há uma graúna em meus ouvidos, mirei pela janela.

não me canso de pensar no privilégio dos pássaros.


[ato III] .coleção dos meus pedaços.

15 de junho de 2017

aqui vai um desabafo:
nos meus versos, é tudo escancarado
palavra de anzol,
e poesia à quem doer

p.e.t.

componentes orgânicos cristalizados em grãos
a disposição inicial tem a intenção de flexibilizar e evitar a rigidez
submete-se à altas temperaturas pra ser capaz de adaptar-se a qualquer formato
ou espessura
a tampa é colocada de modo para que apenas se abra quando necessário
apesar de ainda não ser o momento de se colocar o conteúdo

o processo seguinte modela completamente o material à necessidade
a fina camada de plástico oscila entre pólos: tórrido e gélido
sopra, fecha, enche, rotula, distribui

chego às suas mãos, um graal na urgência
amarrotada e tomada por dois grandes goles
suprindo também a ânsia de todos que rodeiam

acabo

sou amassada por passatempo
e sorte que sou capaz de me adaptar a qualquer formato
ou espessura
sua boca arranca-me o bocal e nos mordemos por horas
tenho vincos no meu anel que poderiam te machucar,
mas você sabe onde morder - ou se acostumou
em suas mãos, deformada, um retrato do que já fui
em sua boca não me pareço com nada, mastigada

alvorece

descarta
mas ao menos teve o cuidado
de me despejar nos recicláveis
sou reflexo de um monte de outros
que rezam para quando renascerem, então,
façam parte de uma casa
objeto de decoração
ou de novo
o destino será o chão da praça?


[ato II] .coleção dos meus pedaços.

11 de junho de 2017

corda bamba

meus pés rachados tocam o grosso linho
as mãos, se contorcem estranhas inconscientemente
não há varas, sequer vendas
atrás e logo a frente tem algo parecido: duas torres, quase que gêmeas
elas oscilam, pois desmancham também
a cada passo
ignoro o conselho
e olho pra baixo
- que também é pra dentro




[ato I] .coleção dos meus pedaços.

4 de junho de 2017

mal a ninguém

improvável
também digo: egoísta que outros não possam estar junto
quando a gente troca nossas coisas
reformulando todos argumentos
sobre todas aquelas que podem ser vistas
acima do prédio, debaixo de mantas
e aquelas
que dentro da gente, em silêncio, tanta árvore cresce
e muda
pouca palavra, seja miúda
ao contrário dos seus olhos, que muito revela
não quero sair daqui [só um pouquinho, na verdade
pra quando a gente voltar, eu não me guentar
daquilo também...
saudade

29 de maio de 2017

Chamamento

me bati umas horas pra encontrar a etimologia da tal palavra de título. cha ma men to tinha um irresistível e próprio cha-ma-men-to (assim com hífen mesmo, ritmado) pra si.
chama, injúria, convocação, fogo. 
e mento... talvez algo a ver com mente, mentos, sei lá, parece.
acontece que o tal por si, como eu mesma me interrompi, visualmente já entrava-se em si. de algum modo visual da palavra.
não havia qualquer indício contrário em todas minhas práticas oraculares. oráculo me lembra olhos. me sinto meio aficcionada por esse signo - e não "aficionada", ela soa estranha escrita assim.
na mania de me interromper, atropelei processos de visão e contemplação (dessa quietude) interior, ao modo que sou incapaz de conduzir um texto sem embaralhar e descontinuar ideias de modo ordenado e coerente, porém conhecendo e sentindo o significado de cada palavra, de forma intuitiva.

insights tarológicos provaram que a auto-explicação contínua dos fatos aplicam-se diretamente à mim em todas suas complexidades de virtudes e des-sortes, traçando uma elipse de respostas e novos questionamentos que, não mais que obviamente, são cíclicos. e a grande necessidade que temos é de traduzi-los do campo das ideias pouco acessadas ou inconscientes, nos utilizando da forma que nossa construção social conseguiu prover as portas de acesso para essa projeção da nossa subjetividade e contato com um - possível - cosmo astral e grande benevolente.

e esse mesmo oráculo me alertou que nada adianta a divagação e empolgação efêmera por ter conseguido chegar a essa concepção de realidade, porque necessariamente para se chegar a algum lugar, o caminho existe.

lembrete: de onde as coisas surgem.

28 de maio de 2017

Quando no direito dói mais

eles passavam pela rua
lambiam me a pele
com seus buracos
brancos
um par de olhos endentiçados
todo dia

eu que reclamasse
pois na minha pele
com seus buracos
um par de orelhas furadas
desde meu primeiro dia
significaria que eu fosse carne

meu gancho de abatedouro
é de ouro
folheado, obrigada

obrigada
a me gabar da minha força e estratégia cotidiana
pra não ser, sabe...
aquela palavra
que eu não consigo nem ouvir mais.

{me perguntaram o porquê de sempre ter meus olhos machucados
não aguento mais ver

4 de maio de 2017

Premeditado

o último e terceiro ato
esperada redenção
espectro superado
dívidas quitadas
pouco glamour
e palavras cansadas
de girar
girar
gira
nem foi nada
pra ninguém
...
na verdade foi pra
mim
e quem mais
haverá
de 
ser?

encebolei-me de cascas todas
antioxidada
porque não é fácil ser de água
e querer voltar pra terra
que solo eu sei
solo
eu sei.

E soube desde o primeiro ato.

13 de fevereiro de 2017

Baixei a guarda


Jeito de dançar característico
salta lá e cá esperando com os olhos um aviso
ou como me chamava quando morria
um
      pou
             qui
                   nho
de suor em bica, nunca vi aquilo
metá aqui: pé no chão, olha o perigo
a outra lá: tá bom, me apaixonei um tiquinho

melhor que eu fosse atenta em outros sentidos
a visão tava perdida na curva do cachinho
meu nariz mesmo, naquela dobra, escondido
ah! mas meus ouvidos...
eles ainda estavam entretidos 
nas palavras de cama e colchão dividido
pudera ter um prazo estendido 
não deu um dia
a poesia acabou
e eu nem tinha entendido.

20 de janeiro de 2017

Escapismo

Em que frequência se batiza
todos aqueles como nós, perdidos?
Entre os coxos e desmembrados
há uma ferida aberta
que se mantém acordada
Disseram ser de uma mulher, talvez velha, não se sabe
eu lhe diria com detalhes se não fosse
meus olhos
outrora
furtados
Pouco sei o local destinatário
mas sequer os cotos correriam 
as ladeiras esmiuçadas
em que essa tal mulher
trafega
transfunde minha ferida
na sua
e de tantas outras mais...
É por seus tubos calcificados 
onde saltam as veias de mais uma enferma
de sangue salino
Quando me dei conta preferi
ser surda
só pra ver ela cantar
de perto, inatingível,

mas juntas, à deriva.

13 de outubro de 2016

Fobos e Deimos

A melhor vista 
do eclipse de mim 
é por debaixo da cama 
deitada, de camisa molhada 
na cara

Já pensou se incomoda os berros de fora
Quando os meus saem daqui de dentro? 

Três séries de urros reprimidos
com intervalos de dez minutos de vazio
e nada
Enquanto no dia a tristeza é engomada
É de noite que a aporia amarrota
Fobos 
e Deimos 
em órbita. 

Trava, anda, se acostuma com a perda
dos olhos de vidro
netunianos que são 
e tão mais ébrios quicando no chão 

Fobos cochicha baixinho 
entre trechos da tristeza que balança 
a visão epicurista que viça
do salto, a presença: 
da ausência total de mim

24 de setembro de 2016

Anfetamim

Passar por esse pico
requer um pouco de alcoolcontrole
porque
tudo me lombra
você

9 de julho de 2016



Saco preto
É bom deixar bem fechado.
Abre
Afunda os dedos, um punhado está bom 
massa cor de tronco
- É úmida.
A resistência de descolar-se das outras, 
Arranca sem dó
de seus dedos. 
Entre a carne mole e dura, 
é terra. 
Não há tempo de lamento qualquer
quando entre a superfície e si não se distingue. 
Os ouvidos dos punhos ignoram 
qualquer sinal. 
Estalado do barro fino
"Com ar, só se quiser uma escultura a rachar"

Terra seca
Não serve

A mão mergulha a si mesma, 
é intermédio, 
é mandado, 
Olho doloso. 
A pena é o barro líquido, 
que mudou de lado
e agora enluva o carrasco.
Se escorre por entre dedos, então 

Terra molhada 
Não serve. 

{Barro judiado
Se não torra, 
Racha.}

5 de maio de 2016

Hidra

Trilha complementar à poesia



O seu ego é ser mártir de uma dor que não é sua, 
nem dos outros.
Surrupia a voz para fazer dela a tua 
um melindre de cigana.
Surrupia, pedra ônix maldita
suas dignidades são só de superfície
da cabeça de sete cabras.
A cada corte fundo
é arrepio na espinha empunhando garrote
enquanto meu ferrolho lhe queimava a última cabeça,
a ideia de enterrar-te em mim era a única solução
para o veneno esguichado em feridas mal curadas.

Quisera tu ser víbora
Nociva.


22 de março de 2016

Duas horas e meia


Na espera escrevo 
O horror da minh'alma. 

Só assim descobri 
Que a solidão deu as mãos ao pesadelo 
Por medo de ser só. 

16 de março de 2016

Víbora gentil



Nunca vi cobra educada
Seu veneno que dispara
Me acerta e ninguém viu

Será que é mania de coral
Fazer arte, embriagar
De sereia alimentar 
Oh, coitada, você viu? 

Traída, refutada
O drama já cansou
Vem pra perto do leão 
Toda quieta, amansada

Você espera que um dia 
O leão lhe devore
Mal sabe, inocente 
Que a cobra se enrosca
E o pescoço ela tora

Só é bonito o teatro
Que a surucucu fizera
Agrada o povo com seu choro 
De malícia, sua miséria 

Então aqui estou
Porta-voz do Seu Leão 
Eita desgraça é essa cobra
Ranca olho, é gavião 

Que o recado seja dado 
Esse olho tem irmão 
E tá mirado nessa cobra.

8 de dezembro de 2015

2012


Era parada olhando pro teto que elas escorreram
As bochechas reclamariam dos rastros se pudessem
Quando caem
No ecoar do vento menos audível
Nos tímpanos elas lamentavam coisas que nem eu mesma sabia explicar.

13 de outubro de 2015

hoje é dia Dê...


Lita, empregada da casa, um pouco de babá, um tico menina. Da pele negra brilhante e cascos de pés barulhentos gastadores de chinela. Não se sabe ao certo em quais condições Lita se submetia, mas que o carinho da menina mais nova, com certeza, ela tinha.
Os miúdos cabelinhos ela enrolava, penteava, e em seu colo ela ninou a barrigudinha. Não existia outra pessoa tão engraçada quanto Lita, dos dizeres "ói muito tempo vesga pras coisas não, que se bater um vento fica".

Lita se foi, roubava dinheiro da casa, maltratava a mais velha; e o pouco de amor que tinha, levou consigo sem ao menos um beijo na menina.



Vanessa, pré-adolescente do novo prédio, escrava da avó e da macheza. Os olhos amendoados de Vanessa, tinham o mel em todos seus sentidos. Nada que a menina quisesse, que não lhe era conseguido. Mesmo que de antemão avisado para a barrigudinha, tudo que saísse da boca de Vanessa era maldizer, e até rinoceronte do primeiro namorado da menininha ela quis ter. A moeda de troca era boa, melhores amigas do mundo, suco de tamarindo e tardes na piscina ela dizia ter.

Que menina ingênua! Todos disseram quando Vanessa se foi, deixando de herança muitos folclores sobre a conduta da menininha. Ela nunca se esqueceu, nunca deixaram.



Ao longo de um quarto de vida — a que antes menina —, nunca entendeu porque não ensinaram, com regras, de que forma se diz adeus para quem está vivo. No entanto, com sua própria receita, os nomes e rostos estão organizados por ordem alfabética e cronológica. Começando por apatia.

8 de outubro de 2015

Transversal


Naquele sonho,

meu céu profundo tinha um centauro, o bicho com arco apontado e olho mirado à distância, tramando uma cilada em meio burburinho de pessoas chapadas.

Do dado dia ouvi de uma velha conhecida, que seus encantos viriam pra desgraçada total, e que naquela lua jamais me caberia. Ora essa, se eu não sabia?

Frieza gelada já de águas passadas, como peixe de aquário fugido do janeiro lá de Varsóvia. 
Ai que tristeza, nossa graça fazia na timidez de (seus) olhos constrangidos.

Quem sabe eu brinco de ficar um pouco mais. Esperando a hora de tesar selvagem criatura já adestrada por insentimentos tão duros.

Como que entendo nosso papo transversal
Que não é de sexo,
Mas fala no ouvido?

24 de agosto de 2015

MotoRápido 24hs, boa noite...


Já tenho o número decorado

Tanto o fixo como celular
Termina em oito oito oito
Deu nem trabalho de gravar 

Que falta de criatividade

Das empresas que liguei
Demora de 15 à 20 minutos 
E foi "que só" que esperei

Uma coisa que eu conheço

É cangote de motoboy 
E o remelexo doidjo
De um asfalto que se destrói 

Bastou um pé d'aguinha

As tranças a gente faz
Por entre vidros lacrados
O esforço é ineficaz 

Porque o atraso é eminente 

Seja pro trabalho, pra casa da gata...
Mas uma certeza a gente tem
Li no muro "nós na rua ninguém desata"

Cê agarra no hômi na frente
E daí se faz poesia 
Num tranco doido súbito você voa
Prum cachorro na travessia.


10 de agosto de 2015

Sem viseira


Cheguei por terras. Aquelas que eram arenosas, firmes e maleáveis. Tu eras como duna morena, e na suntuosa curva de seu pescoço longo eu me deitei. Quando passava meus dedos por ti, adaptava-se ao meu gosto. Sua fala era mutável, o puxar de olhos nevoados. Negros e negros.
Construí castelos em ti. E foi lá que moldamos nosso universo.

Desviei por um momento minha atenção para reparar toda aquela bagunça. Como pude perceber qualquer outra coisa? Era pura brisa, não havia mais terra. O barulho mudo, nada falava ali. Meu toque refletia no nada, e em vão agarrava, agarrava a baforada em meu colo. O que era belo estava na ansiedade do vazio, do  silêncio. Era o sexo unilateral, sem gozo. Alívio que vem, afogo que vai.
Ressecada, só tinha mar.

Em solo movediço, estavam os pés, sem firmeza empurrados por sopros de diversos lados. Evidentemente a queda beijou-me salobre.
A única coisa que vi, apanhei. E não havia outro modo para sê-lo. Tinha nome de menina aquele barco...
Recém-ancorado, ao acaso cabia a viravolta de seu leme.

Embarcada, jamais esqueci que no meu drama português, dependeria para sempre dos dois pingentes que guardei.


O que viria então...
Ressaca?

27 de junho de 2015

Mensagem longa colada - de envio, direto, rápido e esquecido.


Perdi aquele texto que tinha pra você. Um bem bonito, com palavras difíceis e cheio de modos. Ele falava sobre como esquecia versos que haviam chegado até mim, por e pra você. Todo texto era outro, e engraçado é, ainda mais, por falar de esquecimento.
Talvez fosse mais romântica se eu dissesse que perdi meus pensamentos porque molhei meus escritos, ou os derrubei pela janela. Meu celular travou. Pura e simplesmente. Não haveria de ser mais instigante que isso.
E como eu poderia me gastar em analogias agora...
Tinha algo assim:
Verter
As lágrimas que meu estômago engoliu, todas elas, acidificadas que metalizavam minha língua
Vertia
Que as consequências por detrás de si, têm motivos que se validam os karmas.
Ver-te indo
A auto-amputação do mundo de possibilidades. Na preferência de idealização de panoramas incertos. Com a certeza que isso tudo "cheira à merda", e de algum modo, chafurdar.
Vá indo.
E volta, quando der.

22 de abril de 2015

Quando eu vejo a cidade poética


Quando eu vejo a cidade poética
É a calçada e o negro no horizonte da noite corrida
A janela aberta com maresia encrustada de vento varrido
A garota de cabelos curtos e o cara barbudo se entreolhando de lado
O carro acelerado e ouvidos vazios de cantos bonitos
Silêncio ficava enquanto eu só via amor em forma de brisa
Só lembrava do olhar e o que a moça dizia
"Olha pra mim, meu bem, e lembra desse dia comigo"

12 de abril de 2015


Quem sabe eu que tenha ofendido afrodite
O canto fúnebre sai daqui
Sirena menina, seu silêncio me dói
Me adestra pra morte


10 de abril de 2015

Eu te amo lírico não oralizado

olhou sacana
beijou, me chama
treme
vem cá, eu te seguro
antes eu soubesse
que beijo no olho
é isso tudo...


1 de abril de 2015

Intervalo

Foi por descuido.

Setecentos e oitenta e sete dias atrás, eu fui um sinal amarelo.
No último ano do signo de serpente, me coube ser o espacinho entre um samba triste e outro.
Os segundos excitantes de um salto, nunca o impulso.
Lembro também de ser aquele ventinho gostoso de perfume cheiroso que passou.
E quando fui aquele momento que antecede o momento antes do beijo? O da vergonha...
Dez pras nove e meia nas aulas de matemática.
A tarde agradável de quinta na praia, ela, fui eu quem fui.
Um dia inteiro de mensagens.
Ronco da fome na lanchonete pé-sujo da faculdade, muito fui.
Semana passada quis ser - só fui - o suspiro que arranquei da sua garganta.


Vermelho. Disritmia. Terra. Cangote. Agoniazinha. Recreio. Sábado. Bilhetinho. Ronco do sono. Orgasmo.

Não fui.


Mas foi...

12 de março de 2015

Epifania de Zé

       Zé, rapaz novo, de barris às costas, dava carona em suas itinerâncias emocionais.
   Aqui e ali, Zé abarcava moças em seu tonel de barro destampado. E, despreocupado, seguia viagem acostumado com despedidas de suas viandantes. Nem sempre Zé lidava bem com essa tal de despedida, mas de qualquer forma, nas sandálias de couro seu pé esfolava; Até que certo dia, moça bonita, bela raposa, para ele se apresentou: Olá, xô entrar, pra bagunça não vou ligar. Me leve daqui ali que em partida estou, de viagem pra mais nunca tristeza me alcançar.

       Zé, rapaz novo, de coração mole, sempre de moças bonitas cativação conseguiu. Bolava meio mundo de ideias, de canções e pranto partia, pra nunca mais tristeza alcançar.
       Acontece que, de bela raposa, moça bonita, Zé sabia que dela sua façanha seria copiosa, autêntica, inconsolável e teatral.
   Que de olhos semi-serrados a bela raposa, já dera seu recado:
- ô Zé, te cuida, o seu tá guardado.



8 de janeiro de 2015

Eutanásia

A Imperatriz me confessou segredos cabais,
onde marés tenderiam a se modificar.
Tola; andei pelas cartas claras do asfalto amarelado de reflexos siamêsicos.

E em cada toque gélido de realidade,
o sonho entrevava-se e esvaía das mãos do Rei.

O cajado Cigano que impunha-se a mim,
fazia e jazia parte dum tronco de flagelos.

A quem diga que esfolamento pouco é bobagem.
Eu digo.
Por favor, separa o ferro de açoite.

2 de janeiro de 2015

Prole

        Nascida de espuma, concebi a ideia de que meus pés realmente tocavam o saibro barulhento. Há pouco havia embalado meu pequeno em um turbilhão de passagens desconexas e atemporais; ele dormia em meio ao Caos, de onde, desde o princípio, raiou.
Via-o nu, celeste e pequeno. Filho o qual não clamei, que de minha seiva não era.
Solitário  pensei. E logo trouxe à tona em meio ao vermelho pincelado que sangrava nublado, que seu irmão já habitava vingativo em mim.

       Pobre bebê ressonante. Anteros sugar-me-á todo o leite. 
       E nada poderei fazer. 

17 de dezembro de 2014

Presente pra mim

O fumo.

    Dedos tortos e um tanto esmorecidos anunciam que é chegada a vez. A saliva metálica se dissipa, trazendo a sofreguidão do seco, algoz e rouco. A eutanásia passiva, de quem muito em pescoços emaranha, delira em passados sucessivos amargos.
    Nos vigentes cânticos que de sereia arranca, emudece e umedece os lábios fumacentos, nada falam, nada pedem o colo que tanto (não) precisa.

30 de julho de 2014

Não é mais

       Sem muitos enfeites fui capaz de assimilar e compreender toda complexidade do meu ser. Reli algumas coisas que escrevi desde o início de toda Aporia.
Não tão inesperadamente, a empatia foi muito difícil de acontecer com a dor assolada que aquela anima transmitia. Eram pedaços irreconhecíveis de mim mesma, que se eu futucasse um pouco, conseguia apalpar novamente todo aquele pesar altamente calculado em joguinhos de palavras.

       Mas não é mais. Não. Nenhum texto é completamente triste, são manifestos de consciência em meio àquele sofrimento fugaz e tão ingênuo, de quem só é capaz de se doar inteiramente por quem não é capaz de afetar-se. Este é um resumo, sem rodeios.

E sobre coisas boas eu não sei escrever. E isso não pode ser mais.

29 de julho de 2014

Eu peço a minha dor

Tudo o que procuro é a dor e inquietação do ser. Essa que é o fuçar pelo que dói, e o que dói me enfada pelo o que acalma. Disso nada tiro. O tiro num barril de cólera. Que pro gargalo imploro a dor que dantes me eviscerara de pretéritos preteridos, àquela que com a ponta da faca sangrou a carne sob minhas unhas.
Eu sempre tomo gosto pela dor.
E das borras de café - todas predestinadas por mim -, as quais nunca pedi que avisassem a você que é capaz de, também, tomar gosto por sofrer.

2 de junho de 2014

Brevaiedade

Aos olhos dos outros, já pude ter sido tachada de moleque. E de puta. Posso dizer que já me chamaram de ambos, ao mesmo tempo!



Quem sabe tivessem certas dúvidas quanto ao que pretendo estampar pra estes e aqueles, cada dia sendo um pouco tendenciosa pra um lado, um pouco pro outro... Talvez nunca dando certeza do que posso ser, talvez sempre dando.

Não dava nada. Como se isso pudesse dizer algo sobre mim.

E não quer? 

Não. As pessoas não podem ser julgadas pelo que vestem, por suas vaidades.

E são pelo quê? Julgamentos são pré-definidos em milésimos de segundos, já podemos dizer muito sobre quem sequer conhecemos.

Acho que é superficial demais.

Na verdade, subjugar vestimentas é quase tão ruim quanto extrapolar o valor delas.

E o que é essa tal vaidade que fala?

Vaidade, aquilo que é vão; que não tem conteúdo e se baseia numa aparência mentirosa.

Isso é o significado mais raso que pôde me dar. A primeira coisa que leu sobre vaidade? Também pode ser atributos físicos ou intelectuais, caracterizado pela esperança de reconhecimento e/ou admiração de outras pessoas.

Tão raso quanto a poça do meu cuspe. Assim como conceitos repetidos. O que fez só foi copiar algo que fora lido. Eis que surge a famosa moda!

Preciso procurar uma definição pra consenso, ou posso me poupar disso? Me cansa joguetes.



Ah, a vaidade, acho que o que melhor pode defini-la é pensar que seremos indefinidamente cicatrizados na vida de outrem...

Como poderia não presumir isso? Impossibilidade de apagar existências é um dos males da sociedade, você bem sabe.

Sei bem. Mas assim como sei que existências são frequentemente recicladas. Podemos não apagar, mas sim substituir memórias e acreditar muito que elas são, e, sempre foram desta forma. Não me leve a mal, aquele filme que tanto dizia sobre a vida de vocês, talvez hoje tenha outro significado. 


Aquela música de 2007, assim como lugares que partilharam, comidas e sexo. Tudo isso englobará muitos outros significados e referências. Que nada lhe são propriedade.

Nossa.

Acredite em mim. Você faz isso toda hora. É pretensão demais pensar que já não o fizeram contigo.
Aquela carta que outrora fora propriedade de fulminantes palavras, hoje faz parte de recordações de momentos breves. Até mesmo lembranças dessa conversa serão convencionadas e direcionadas a um específico significado da sua vida, que não será o mesmo de agora.

Breve que nem a vaidade, então?

Tão quanto.


16 de maio de 2014

NO PUEDO!

Sobre vontade intermitente, a de estar contigo é algo que não se encaixa neste patamar. Há a facilidade do ser e do estar, do querer e praticar, como se minhas preocupações quanto ao que poderia expressar, estivessem livres de julgamentos pré-concebidos e análises mais profundas do ser.
Dos quereres, esse é o que menos me machuca - por enquanto.
Me pergunto se perdurará todo o descompromisso, a conversa fácil e o riso. Já passei por isso antes, e hoje sobra amizade e traços de pesar. Consideração? Me sinto sugando tudo que há pra me oferecer.
E quando não restar mais novidades? Pulando de mastro em mastro, o pirata não para no barco.
E não há outro lugar pra se cair que não seja as profundezas mais ludibriantes do que as grandes nuances azuis?
No puedo.

Eu me pergunto sempre... Esse texto que escreveu, poderia ser pra mim?

9 de maio de 2014

Pierrot bundão

Sabia desde a semana anterior que este dia seria fatídico para causar boas impressões quanto a capacidade de permanecer impassível. Afinal, era uma pessoa que com recorrência não levava-se a sério. Por, justamente, achar que preocupação demais, mesmo que com problemas sórdidos, só acabava por pincelar mais uma camada de tinta sofrimental.

Na hora de planejar as roupas, em frente à gaveta bagunçada, procurava algo que fosse um tanto descompromissado, um tanto vivo e feliz. Não podia deixar com que as cores penumbriantes envaidecessem a aura negra que teimava em pregar-lhe as veias.

...


Optou por caminhar com uma velha decepção, porém, sobre esta eu gostaria de me ater depois. Deixo aqui esse lembrete. E mais um. Explicar a conotação digna para palavra.

O jardim que percorreram tinha um "quê" de perdido nas décadas, todo o local cheirava à sementes e papelão velho. Algo que suponho que seja natural.

Quadros com erros de português, livros com relatos herbáceos, fases da lua e suas influências. Era bem distante de qualquer outra coisa que fora falada em alguns parágrafos. Cogitou em ser o escapismo perfeito, se não fosse a infortunada aula que surgia entre folhas de preocupação. Clareira! Clareira!

...


Fez questão de chegar e analisar bem qual lugar seria perfeito pra se deixar contemplar. Com a impossível decisão, sentou em dois lugares, arranjando uma desculpa qualquer pra justificar com quem quer que fosse. Todo esse teatro fora armado à fim de causar aquela pose de austeridade.
Se tudo não tivesse sido minimamente pensado, poderia jurar que era uma personagem da Commedia Dell'arte.

Por alguns momentos foi capaz de se manter absorta nos rejuntes dos azulejos, nos dramas litúrgicos e todos seus interesses vindos da Igreja, nos peitos grandes da professora...
Mas aí parava e rabiscava.
"Ê Pierrot bundão, Comlombina é uma filha da puta querendo atenção."

Tentou evitar leves comparações com o dito personagem. Uma tarefa difícil. Porque se fosse fácil, não teria nem notado mínimas semelhanças suas com o mesmo. O que era óbvio: seu declínio foi ao menos pensar que poderiam ser análogos.

...


Posteriormente, pode saborear o doce prazer vingativo e privador do "não".
Não, não vou beber café.
Não, não quero pastel.
Não, não vou ficar hoje.

Ah, aguenta essa agora, cara.


E na despedida, só não pode dizer não praquele beijo abruptamente insignificante na sua bochecha.


"Pierrot teria respirado tão naturalmente quanto eu depois de passar por isso? Me sinto bem, o ar é o mesmo desde trinta segundos atrás."

7 de maio de 2014

"Guardei a sua carta"


[Passado pra mim, o fumo.]

É passado pra mim? Me perguntei.


O frenesi de quatro letras me fez sofregar o cigarro de forma mais rápida. Talvez fosse a única coisa que me tiraria do lugar – que não fossem os mosquitos.
Caminhando alguns passos pra longe daquela fumaça de conversas sem sentido, com meus olhos débeis tanto quanto meu humor, pude ler uma profecia que já era anunciada.

Meu suspiro e a baforada de vento frio deram as mãos.

[E então, fumei.]

Traguei o único carinho nas minhas costas, a forma meiga que falava de sentimentos sem me olhar nos olhos, e aquela outra que me fazia temer de encarar os seus.

[Até o meu imo gritar, eu soltei.]

De forma que aquilo se desfizesse na irrealidade daquela brisa, me obrigando a sentar novamente, lugar de onde nunca deveria ter saído. Fingi meu melhor semblante que até os saudosos mosquitos se convenceram disso.

Com aquela mensagem, a atitude mais plausível foi deixar tudo gravado, pra depois eu me torturar.


[Vou ter que passar?]

Prime

A poesia
Apois ia
Aporia.