13 de fevereiro de 2017

Baixei a guarda


Jeito de dançar característico
salta lá e cá esperando com os olhos um aviso
ou como me chamava quando morria
um
      pou
             qui
                   nho
de suor em bica, nunca vi aquilo
metá aqui: pé no chão, olha o perigo
a outra lá: tá bom, me apaixonei um tiquinho

melhor que eu fosse atenta em outros sentidos
a visão tava perdida na curva do cachinho
meu nariz mesmo, naquela dobra, escondido
ah! mas meus ouvidos...
eles ainda estavam entretidos 
nas palavras de cama e colchão dividido
pudera ter um prazo estendido 
não deu um dia
a poesia acabou
e eu nem tinha entendido.

20 de janeiro de 2017

Escapismo

Em que frequência se batiza
todos aqueles como nós, perdidos?
Entre os coxos e desmembrados
há uma ferida aberta
que se mantém acordada
Disseram ser de uma mulher, talvez velha, não se sabe
eu lhe diria com detalhes se não fosse
meus olhos
outrora
furtados
Pouco sei o local destinatário
mas sequer os cotos correriam 
as ladeiras esmiuçadas
em que essa tal mulher
trafega
transfunde minha ferida
na sua
e de tantas outras mais...
É por seus tubos calcificados 
onde saltam as veias de mais uma enferma
de sangue salino
Quando me dei conta preferi
ser surda
só pra ver ela cantar
de perto, inatingível,

mas juntas, à deriva.

13 de outubro de 2016

Fobos e Deimos

A melhor vista 
do eclipse de mim 
é por debaixo da cama 
deitada, de camisa molhada 
na cara

Já pensou se incomoda os berros de fora
Quando os meus saem daqui de dentro? 

Três séries de urros reprimidos
com intervalos de dez minutos de vazio
e nada
Enquanto no dia a tristeza é engomada
É de noite que a aporia amarrota
Fobos 
e Deimos 
em órbita. 

Trava, anda, se acostuma com a perda
dos olhos de vidro
netunianos que são 
e tão mais ébrios quicando no chão 

Fobos cochicha baixinho 
entre trechos da tristeza que balança 
a visão epicurista que viça
do salto, a presença: 
da ausência total de mim

24 de setembro de 2016

9 de julho de 2016



Saco preto
É bom deixar bem fechado.
Abre
Afunda os dedos, um punhado está bom 
massa cor de tronco
- É úmida.
A resistência de descolar-se das outras, 
Arranca sem dó
de seus dedos. 
Entre a carne mole e dura, 
é terra. 
Não há tempo de lamento qualquer
quando entre a superfície e si não se distingue. 
Os ouvidos dos punhos ignoram 
qualquer sinal. 
Estalado do barro fino
"Com ar, só se quiser uma escultura a rachar"

Terra seca
Não serve

A mão mergulha a si mesma, 
é intermédio, 
é mandado, 
Olho doloso. 
A pena é o barro líquido, 
que mudou de lado
e agora enluva o carrasco.
Se escorre por entre dedos, então 

Terra molhada 
Não serve. 

{Barro judiado
Se não torra, 
Racha.}

5 de maio de 2016

Hidra

Trilha complementar à poesia



O seu ego é ser mártir de uma dor que não é sua, 
nem dos outros.
Surrupia a voz para fazer dela a tua 
um melindre de cigana.
Surrupia, pedra ônix maldita
suas dignidades são só de superfície
da cabeça de sete cabras.
A cada corte fundo
é arrepio na espinha empunhando garrote
enquanto meu ferrolho lhe queimava a última cabeça,
a ideia de enterrar-te em mim era a única solução
para o veneno esguichado em feridas mal curadas.

Quisera tu ser víbora
Nociva.


22 de março de 2016

Duas horas e meia


Na espera escrevo 
O horror da minh'alma. 

Só assim descobri 
Que a solidão deu as mãos ao pesadelo 
Por medo de ser só.